26 de mar de 2007

Mário Cesariny


Ao longo da muralha que habitamos

Há palavras de vida há palavras de morte

Há palavras imensas, que esperam por nós

E outras frágeis, que deixaram de esperar

Há palavras acesas como barcos

E há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturas palavras gemidos.

Palavras que nos sobem ilegíveis à boca


Palavras diamantes

palavras nunca escritas

Palavras impossíveis de escrever

Por não termos conosco cordas de violinos


nem todo o sangue do mundo

nem todo o amplexo do ar

E os braços dos amantes

escrevem muito alto


Muito além do azul onde oxidados morrem


Palavras maternais só sombra só soluço

Só espasmos só amor só solidão desfeito


Entre nós e as palavras, os emparedados

E entre nós e as palavras,

o nosso dever falar.
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Heraclito de Epheso disse:

"O pior de todos os males seria a morte da palavra"



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" Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento.
Mas não pode enganar-se na sua parte de palavra"

Sophia de Mello Breyner Andersen, in : O nome das coisas.

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