29 de mar de 2007

Vieira da Silva



Testamento




Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro: riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um garança para deixar ouvir o violoncelo.

Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.

Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde veronese para a memória da primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.

Um branco puro: pureza.

Terra de siena natural: a transmutação do ouro.

Um preto sumptuoso para ver Ticiano.

Um terra de sombra natural para aceitar melhor
A melancolia negra.
Um terra de siena queimada para o sentimento
De duração.

Maria-Helena Vieira da Silva
(1908-1992)

26 de mar de 2007

Mário Cesariny


Ao longo da muralha que habitamos

Há palavras de vida há palavras de morte

Há palavras imensas, que esperam por nós

E outras frágeis, que deixaram de esperar

Há palavras acesas como barcos

E há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição


Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturas palavras gemidos.

Palavras que nos sobem ilegíveis à boca


Palavras diamantes

palavras nunca escritas

Palavras impossíveis de escrever

Por não termos conosco cordas de violinos


nem todo o sangue do mundo

nem todo o amplexo do ar

E os braços dos amantes

escrevem muito alto


Muito além do azul onde oxidados morrem


Palavras maternais só sombra só soluço

Só espasmos só amor só solidão desfeito


Entre nós e as palavras, os emparedados

E entre nós e as palavras,

o nosso dever falar.
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Heraclito de Epheso disse:

"O pior de todos os males seria a morte da palavra"



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" Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento.
Mas não pode enganar-se na sua parte de palavra"

Sophia de Mello Breyner Andersen, in : O nome das coisas.

25 de mar de 2007

Clarice Lispector

Posted by Picasa

24 de mar de 2007

Clarice Lispector


O que me tranquiliza
é que tudo o que existe
existe com a precisão absoluta.

O que for do tamanho de
uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma
fração de milímetro
além do tamanho de uma
cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma
grande exatidão



Pena é que a maior parte
do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível

O bom é que a verdade
chega a nós
com um sentido secreto
das coisas

Nós terminamos adivinhando
confusos,
a perfeição.



Postagem: Jugioli

6 de mar de 2007

Sobre o Tempo...


As coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, as tardias notas que não lerão os poucos dias
que me restam, os naipes e o tabuleiro,
um livro e em suas páginas a ofendida violeta,
monumento de uma tarde,
de certo inesquecível e já esquecida,
o rubro espelho ocidental em que arde uma ilusória aurora.
Quantas coisas, limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.
...................................................................................
Poema: Jorge Luís Borges
....................................................................................
Pintura: Jean-Siméon Chardin (1699-1799)

3 de mar de 2007

As passagens

" Leio e estou liberto. Adquiro objetividade.
Deixei se ser eu e disperso.
E o que leio, em vez de ser um traje meu que mal vejo e por vezes me pesa,
é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos,
a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em
mar..."

Leio como quem abdica...

Leio como quem passa...

E é nos clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem,
ou não dizem, que me sinto sagrado transeunte,
ungido peregrino contemplador
sem razão do mundo
sem propósito."
.................................................................................

In: Livro do Desassossego de Fernando Pessoa

Pintura: Gwen Jonh (1876-1939)


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2 de mar de 2007

Um dia branco...


Dai-me um dia branco, um mar de beladona

Um movimento

Inteiro, unido, adormecido

Como um só momento.


Eu quero caminhar como quem dorme

Entre países sem nome que flutuam.


Imagens tão mudas

Que ao olhá-las me pareça

Que fechei os olhos.


Um dia em que se posso não saber.


in: Poemas escolhidos de Sophia de Mello Andresen

...

Pintura:Vilhelm Hammershoi
...

Poema


Ah, já está tudo lido,
Mesmo o que falta ler!
Sonho, e ao meu ouvido
que música vem ter?
Fernando Pessoa
Pintura: Vilhelm Hammershoi
.....

Sophia de Mello


Perfeito é não quebrar

a imaginária linha
.

Fernando Pessoa


Para ser grande,

sê inteiro:

nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és

no mínimo que fazes,

assim em cada lago

a lua todo Brilha

porque alta vive.

Herberto Helder


O Olhar é um pensamento

Tudo assalta tudo, e eu sou
a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as
queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora
-não posso escrever mais alto
trasmitem-se, interiores, as formas.


in: Poesia Toda, 1990
Pintura: Vilhelm Hammershoi

1 de mar de 2007

Herberto Helder



Acesse na imagem... Para ler o Poema

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